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Como o açúcar pode influenciar o desenvolvimento do paladar do bebé
Como o açúcar pode influenciar o desenvolvimento do paladar do bebé

por 

Carolina

Como o açúcar pode influenciar o desenvolvimento do paladar do bebé
Saiba como o paladar do bebé se desenvolve e o que a ciência diz sobre a influência da exposição precoce ao açúcar nas preferências alimentares.
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As preferências alimentares não surgem por acaso. Desenvolvem-se desde muito cedo e são moldadas pela biologia, pelas experiências sensoriais iniciais e pelo ambiente alimentar em que a criança cresce. Neste artigo explicamos como o paladar do bebé se desenvolve e de que forma a exposição precoce a açúcares livres pode influenciar essas preferências.

Se quiser compreender o tema de forma mais abrangente — incluindo efeitos na saúde, limites por idade e alternativas práticas — recomendamos a leitura do artigo pilar "Porque não oferecer açúcar ao bebé".


O que dizem as entidades de saúde sobre açúcar e bebés

Associação Americana do Coração (AHA) recomenda que não sejam introduzidos açúcares adicionados antes dos 2 anos. A partir dessa idade, o consumo de açúcares livres deve ser limitado a menos de 25 g por dia (≈6 colheres de chá).

Estas recomendações estão alinhadas com:

  • Academia Americana de Pediatria (AAP)

  • Organização Mundial da Saúde (OMS)

  • Direção-Geral da Saúde (DGS)


Todas defendem a redução máxima da exposição precoce a açúcares livres, especialmente em bebés e crianças pequenas.


Preferência pelo sabor doce: o que é inato e o que é aprendido

Os seres humanos nascem com uma preferência inata pelo sabor doce. Por volta dos 4 meses, desenvolve-se também a preferência pelo sabor salgado, enquanto existe uma predisposição genética para rejeitar o sabor amargo.

Esta resposta tem uma base evolutiva:

  • alimentos doces → geralmente energéticos e seguros

  • sabores amargos → associados, historicamente, a substâncias tóxicas


Além disso, crianças em idade pré-escolar apresentam frequentemente neofobia alimentar, ou seja, resistência a alimentos novos.


O paladar começa antes da introdução alimentar

O primeiro contacto do bebé com os sabores não começa aos 6 meses.

  • Durante a gravidez, os sabores da dieta materna passam para o líquido amniótico

  • Durante a amamentação, continuam a ser transmitidos através do leite materno


Mais tarde, com a introdução alimentar, o bebé entra numa fase crítica de aprendizagem sensorial, em que:

  • aprende a aceitar sabores

  • constrói preferências

  • associa alimentos a experiências positivas ou negativas

Estudos mostram que a exposição repetida é uma das ferramentas mais eficazes para promover a aceitação de novos alimentos — mesmo daqueles que inicialmente são rejeitados.


Açúcar precoce “vicia” o paladar?

Esta é uma pergunta comum — e a resposta precisa de nuance.

A evidência científica não é absoluta no sentido de afirmar que uma exposição pontual ao açúcar “estraga” o paladar para sempre. O que a investigação sugere é que:

  • exposição frequente e precoce a sabores muito doces

  • especialmente através de alimentos ultraprocessados

  • pode reforçar preferências por alimentos doces

  • e dificultar a aceitação de sabores menos doces (como vegetais, iogurte natural, frutas menos maduras)


Ou seja, o padrão e a frequência são mais relevantes do que episódios isolados.

É por isso que as recomendações de saúde pública defendem um quotidiano alimentar com pouca doçura, especialmente antes dos 2 anos.


Como modelar as preferências alimentares do bebé

Sabendo que a preferência pelo doce é natural, o objetivo não é evitar sabores doces naturais, mas sim não intensificar artificialmente essa preferência.


Boas práticas apoiadas pela evidência:


1. Expor a uma grande variedade de sabores

Inclua regularmente:

  • vegetais (incluindo crucíferos e folhas verdes)

  • frutas menos doces

  • sabores ácidos e ligeiramente amargos


2. Repetir, repetir, repetir

A aceitação de um alimento pode exigir 6 a 15 exposições. Recusar hoje não significa rejeitar amanhã.

3. Comer em conjunto

O comportamento alimentar dos pais é um forte preditor do comportamento das crianças. Comer os mesmos alimentos, ao mesmo tempo, aumenta a aceitação.

Este ponto está aprofundado no artigo "Porque não oferecer açúcar ao bebé", onde falamos também de rotina, equilíbrio e relação com a comida.


O papel da escola e da creche na formação do paladar

Em Portugal, com licenças parentais curtas, muitos bebés fazem uma grande parte das suas refeições em contexto escolar desde o início da introdução alimentar.

Estudos mostram que:

  • modelos de adultos e pares influenciam fortemente a aceitação de alimentos

  • ver outros a comer aumenta a perceção de segurança do alimento

Isto torna a alimentação em creche um fator determinante na formação do paladar.

Infelizmente, ainda é comum encontrar:

  • poucos vegetais no prato

  • alimentos ultraprocessados frequentes

  • sobremesas e lanches ricos em açúcar (papas lácteas, iogurtes açucarados, gelatinas, bolachas, bebidas achocolatadas)

Para exemplos concretos, veja o artigo "INSA: metade das papas infantis de compra contêm açúcar".


O que são açúcares livres?

Segundo a OMS, açúcares livres incluem:

  • todos os açúcares adicionados

  • açúcar presente em mel, xaropes

  • açúcar de sumos e concentrados de fruta

Não incluem:

  • açúcar naturalmente presente na fruta intacta

  • lactose do leite humano, fórmula infantil ou laticínios sem açúcar adicionado


Para aprender a identificá-los nos rótulos, veja O açúcar escondido nos alimentos.


Outros nomes para açúcar nos rótulos

O açúcar pode aparecer com muitos nomes diferentes, como:

  • xarope de glucose, milho ou arroz

  • açúcar de cana, mascavado, coco, demerara

  • frutose, glicose, dextrose, sacarose

  • concentrado de sumo de fruta

  • maltodextrina

A presença de vários destes ingredientes no mesmo produto é um sinal claro de açúcar adicionado.


Em resumo

  • O bebé nasce com preferência pelo doce — isso é normal

  • As preferências alimentares são moldáveis, especialmente nos primeiros anos

  • A exposição frequente a açúcares livres pode reforçar a preferência por sabores muito doces

  • A variedade, a repetição e o exemplo são ferramentas-chave

  • O ambiente alimentar (casa + escola) tem um papel central

Para uma visão completa sobre porque evitar açúcar antes dos 2 anos, limites por idade e alternativas práticas, leia "Porque não oferecer açúcar ao bebé".


Fontes

  1. Added Sugars and Cardiovascular Disease Risk in Children: A Scientific Statement From the American Heart Association

  2. Academia Americana de Pediatria

  3. Guideline: Sugar intake for adults and children, WHO

  4. DGS Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos

  5. Birch LL, Fisher JO. Development of eating behaviors among children and adolescents. Pediatrics. 1998 Mar;101(3 Pt 2):539-49. PMID: 12224660.

  6. Alison K. Ventura, John Worobey, Early Influences on the Development of Food Preferences, Current Biology, Volume 23, Issue 9, 2013, Pages R401-R408, ISSN 0960-9822, https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.02.037.

  7. Sina, E.; Buck, C.; Jilani, H.; Tornaritis, M.; Veidebaum, T.; Russo, P.; Moreno, L.A.; Molnar, D.; Eiben, G.; Marild, S.; Pala, V.; Ahrens, W.; Hebestreit, A. Association of Infant Feeding Patterns with Taste Preferences in European Children and Adolescents: A Retrospective Latent Profile Analysis. Nutrients 201911, 1040. https://doi.org/10.3390/nu11051040

  8. Stephanie Anzman-Frasca, Jennifer S. Savage, Michele E. Marini, Jennifer O. Fisher, Leann L. Birch, Repeated exposure and associative conditioning promote preschool children’s liking of vegetables, Appetite, Volume 58, Issue 2, 2012, Pages 543-553, ISSN 0195-6663, https://doi.org/10.1016/j.appet.2011.11.012.

  9. Ventura AK, Worobey J. Early influences on the development of food preferences. Curr Biol. 2013 May 6;23(9):R401-8. doi: 10.1016/j.cub.2013.02.037. PMID: 23660363.

  10. H.M. Hendy, B. Raudenbush, Effectiveness of teacher modeling to encourage food acceptance in preschool children, Appetite, Volume 34, Issue 1, 2000, Pages 61-76, ISSN 0195-6663, https://doi.org/10.1006/appe.1999.0286.

  11. Solid Starts

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