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por
Carolina
O cádmio no chocolate preocupa especialistas de saúde: saiba o que é, porque está presente no cacau, quais os chocolates com mais e menos cádmio segundo a Que Choisir, e que outros alimentos também contribuem para esta contaminação.
O cádmio é um metal pesado tóxico, naturalmente presente nos solos, mas que se acumula no organismo humano através da alimentação. A exposição excessiva está associada a riscos importantes:
Ossos: fragilização, osteoporose e maior risco de fraturas.
Rins: danos renais com consumo crónico.
Cancro: suspeita de associação ao aumento da incidência de cancro do pâncreas.
Crianças: possível impacto no desenvolvimento neurológico quando a exposição ocorre durante a gravidez e na primeira infância.
As autoridades europeias definiram uma dose tolerável semanal provisória de 2,5 μg de cádmio por kg de peso corporal. Isto significa que uma criança de 30 kg não deveria ultrapassar cerca de 10,5 μg por dia, e um adulto de 75 kg cerca de 26 μg por dia.
O cacaueiro é uma planta que absorve naturalmente o cádmio do solo. Em regiões da América Latina, como os Andes ou zonas vulcânicas, os solos são naturalmente mais ricos neste metal. Como muitos chocolates biológicos (bio) utilizam cacau destas origens, acabam por apresentar níveis mais altos de cádmio.
Importa sublinhar: não se trata de pesticidas ou poluição humana, mas sim de uma característica natural dos solos.
A associação de consumidores francesa UFC-Que Choisir analisou 41 produtos de cacau e chocolate — incluindo tabletes, cereais, bolachas e chocolate em pó.
As conclusões mostram que:
Alguns chocolates negros - incluindo os biológicos -, de origem peruana ou latino-americana, fornecem 20 a 35% da dose máxima tolerada para um adulto numa simples porção de 20 g.
Nas crianças, que consomem cereais, bolachas e chocolate em pó, a soma de várias porções chega facilmente a 50% da dose diária de referência.
De acordo com a análise da Que Choisir, estes foram os chocolates de tablete com maior contribuição para a dose diária de referência. Os valores são para apenas 20 gramas de chocolate:
Éthiquable – Pérou 70% (bio): 35% em adultos e 87% em crianças
Kaoka – Noir 70% (bio): 31% e 79%
Alter Eco – 75% Pérou (bio): 31% e 78%
Cémoi – Noir 72% (bio): 28% e 69%
Fair – Chocolat noir (bio): 21% e 54%
Tendência clara: chocolates amargos (+ de 70%) de origem latino-americana apresentam os teores mais altos de cádmio.
Outras marcas que estão à venda em Portugal e que também foram testadas:
Auchan bio 70%: 18% em adultos e 45% em crianças
Lindt Chocolate 70%: 10% e 26%
Fin Carré (Lidl) negro intenso: 9% e 22%
A análise mostrou ainda que não só as tabletes, mas também outros produtos com cacau contribuem significativamente para a exposição:
Bjorg – bolachas recheadas (50 g): 20% da dose para criança
Nestlé – Chocapic (46 g): 11% criança, 5% adulto
Poulain – chocolate em pó 70% (13,5 g): 17% criança, 7% adulto
Bjorg granola bio: 8% criança (vs. Kellogg’s Trésor: 3%)
Isto significa que bolachas, cereais e chocolates em pó podem ser fontes silenciosas de cádmio na infância.
O Regulamento (UE) 488/2014 estabelece limites máximos de cádmio nos chocolates:
0,10 mg/kg – chocolate de leite (<30% cacau)
0,30 mg/kg – 30–50% cacau
0,80 mg/kg – >50% cacau
0,60 mg/kg – cacau em pó
Todos os produtos testados cumprem a lei. O problema é que, mesmo dentro dos limites, o consumo diário pode levar ao excesso cumulativo, sobretudo em crianças.
Um exemplo prático ajuda a perceber melhor: Uma criança de 30 kg (cerca de 10 anos), ao comer dois biscoitos recheados Bjorg e uma chávena de chocolate quente Poulain ao lanche, mais uma taça de Chocapic ao pequeno-almoço, atinge 48% da dose diária de referência em cádmio. Ou seja, quase metade da quantidade a partir da qual o risco para a saúde já não pode ser excluído, segundo a Anses. Quando se somam ainda os restantes alimentos ingeridos ao longo do dia, ultrapassar este limite torna-se muito fácil.
O chocolate não é a única fonte de exposição. Este metal acumula-se em vários alimentos de consumo diário:
Cereais e derivados (pão, massas, bolachas).
Batatas.
Legumes como espinafres, couves e cenouras.
Frutos do mar (amêijoas, ostras).
Chá preto.
Segundo Santé Publique France, a contaminação da população francesa por cádmio duplicou entre 2006 e 2014. Hoje, é três vezes superior à dos adultos americanos e quatro vezes superior à das crianças alemãs ou americanas.
Grande parte desta contaminação vem do uso de fertilizantes fosfatados, sobretudo os importados de minas em Marrocos, particularmente ricos em cádmio. Uma vez aplicados nas culturas, aumentam a absorção deste metal pelos cereais, batatas e hortícolas.
Em junho de 2025, médicos franceses publicaram uma carta aberta alertando para a impreensão alarmante da população ao cádmio, que classificaram como cancerígeno, reprotoxicológico e possivelmente mutagénico.
Sublinharam ainda a suspeita de que este metal possa estar ligado ao aumento preocupante dos cancros do pâncreas em França, defendendo medidas urgentes:
Limitar o teor de cádmio nos fertilizantes fosfatados, para atuar na origem do problema.
Reforçar os limites legais nos alimentos, ajustando-os à vulnerabilidade das crianças.
Moderação: limitar a frequência e quantidade de chocolate e derivados, especialmente em crianças.
Alternar origens: chocolates feitos com cacau de origem africana (Gana, Costa do Marfim) tendem a ter menos cádmio.
Variar snacks: oferecer fruta, frutos secos ou bolachas caseiras em vez de produtos de cacau todos os dias.
Atenção ao chocolate em pó: usar apenas de forma ocasional.
Diversificar a alimentação: variar entre diferentes tipos de cereais e hidratos, em vez de depender sempre de pão, massas ou batatas.
O cádmio no chocolate é um problema real e documentado, sobretudo nos chocolates negros bio de origem latino-americana. Ainda que os produtos respeitem a lei, o consumo cumulativo pode colocar adultos e, em particular, crianças acima dos valores toleráveis.
A solução passa por moderação, diversidade alimentar e escolhas conscientes, ao mesmo tempo que se exigem políticas agrícolas mais seguras, com limites mais baixos de cádmio nos fertilizantes para proteger as gerações futuras.
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