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Carolina
Por Joana Caçoeiro, Terapeuta da Fala Miofuncional
Instagram: @joanacacoeiro_terapeutadafala
Quando pensamos em alimentação saudável na infância, tendemos a focar-nos apenas nos nutrientes: ferro, vitaminas, legumes, fruta… Mas existe outra parte igualmente importante e que muitas vezes é esquecida: a forma como os alimentos são oferecidos, em particular a textura e a consistência.
A maneira como o bebé morde e mastiga é fundamental para o desenvolvimento de todo o sistema estomatognático (boca, mandíbula, língua, lábios, músculos e estruturas associadas)¹. A mastigação tem uma verdadeira “janela de oportunidade”:
entre os 7 e os 9 meses de idade, e não deve ser adiada sem motivo clínico.
É nesta fase que começamos a passar de um padrão de sucção (do peito ou biberão) para um padrão de mastigação ativa, que vai preparar o bebé para falar, respirar melhor, engolir em segurança e ter uma estrutura facial harmoniosa.
A boca participa em funções essenciais do dia a dia:
respiração
sução
mastigação
deglutição (engolir)
fala
Todas estas funções dependem do mesmo “conjunto de trabalho”: língua, lábios, bochechas, mandíbula, musculatura orofacial e organização neurológica.
E aqui está um ponto-chave:
os mesmos músculos que usamos para mastigar são os que usamos para falar.
A mastigação inicia-se com a introdução alimentar e vai amadurecendo entre os 12 e os 18 meses, ficando totalmente desenvolvida por volta dos 4–5 anos.
A fala tem um percurso muito semelhante:
primeiras palavras consistentes: entre 12 e 18 meses
por volta dos 5 anos, espera-se uma fala inteligível, com a produção correta da maioria dos sons.
Coincidência? Não.
Uma alimentação diversificada em texturas é um dos pilares do bom desenvolvimento oro-facial, motor e sensorial, e contribui diretamente para a qualidade da fala¹.
Se o bebé começar a introdução alimentar com papas, isso não é um problema. O que é problemático é ficar demasiado tempo apenas em alimentos pastosos.
A força que a mandíbula precisa de exercer para mastigar um alimento sólido é muito maior do que para manipular um puré ou alimento liquidificado²˒³.
Essa força funciona como um “ginásio” constante para os músculos da face.
Quando a dieta é demasiado mole e pastosa durante muito tempo, aumenta o risco de:
Alterações na fisionomia: estreitamento do terço inferior da face (zona lábios, mandíbula, queixo);
Respiração oral (pela boca), muitas vezes associada à diminuição do tónus dos músculos da face⁴;
Alterações na arcada dentária, como mordidas cruzadas e/ou abertas, que podem favorecer interposição da língua⁵;
Hipomobilidade e hipotonia da língua⁶, dificultando a produção de fonemas como:
/r/ (ex.: “caracol”)
/s/ (“sapo”)
/z/ (“zebra”)
/t/ (“tambor”)
/d/ (“dente”)
/n/ (“nuvem”)
/l/ (“lua”)
Hipotonia dos lábios (músculo orbicular), com impacto na produção de:
/p/ (“pato”)
/b/ (“boca”)
/m/ (“mota”)
Ou seja:
quanto mais tempo o bebé se mantiver numa dieta exclusivamente pastosa, maior o risco de alterações musculares e estruturais que podem comprometer a mastigação, a respiração e a fala.
Estas alterações, se não forem identificadas e acompanhadas, podem contribuir para uma Perturbação dos Sons da Falamais tarde⁷.
Algumas orientações simples podem fazer uma grande diferença no desenvolvimento oro-facial:
A introdução alimentar não depende de o bebé ter dentes.
Com os sinais de prontidão e a partir dos 6 meses, o bebé consegue esmagar alimentos macios com a gengiva.
Não é só variar sabores — é fundamental variar também:
alimentos macios, esmagados
pedaços bem cozidos
finger foods seguros
diferentes formas e tamanhos adaptados à idade
A melhor forma de fortalecer os músculos faciais é usando-os:
Quanto mais o bebé mastiga, mais treina língua, lábios, bochechas e mandíbula.
Salvo indicação clínica (por exemplo, disfagia), é preferível:
esmagar individualmente com o garfo
deixar pequenos pedaços suaves
ir progredindo gradualmente nas texturas

Toque, cheiro, experimentação com as mãos e boca fazem parte da aprendizagem sensorial:
deixe o bebé mexer
deixe sujar
deixe tentar levar sozinho à boca
Sempre que possível, o bebé deve:
estar sentado numa cadeira da papa, à mesa
ver os adultos a comer
observar a mastigação, a forma como se usa o copo, o garfo, a colher
Os bebés aprendem muito por imitação.
Mostre claramente como se mastiga:
mastigue de frente para o bebé
faça movimentos mais lentos e exagerados
mantenha sempre uma expressão de prazer ao comer
Cada criança tem o seu tempo para:
aceitar novas texturas
tolerar novos sabores
ganhar coordenação para mastigar e engolir
Pressão e ansiedade dificultam o processo. O objetivo é que a criança goste de comer e se sinta segura.
É importante procurar avaliação especializada se:
o bebé não progride nas texturas e mantém-se apenas em dieta pastosa;
recusa sistematicamente alimentos sólidos ou com “pedaços”;
parece fazer muita força, engasga-se ou cansa-se a mastigar;
respira maioritariamente pela boca, tem olheiras, parece sempre cansado e irritado;
nota alterações evidentes na mastigação ou na fala (poucos sons, fala pouco inteligível para a idade, trocas de sons persistentes).
Nem sempre é “apenas uma fase”.
Uma avaliação por Terapeuta da Fala Miofuncional pode fazer toda a diferença no desenvolvimento global da criança.
Quem mastiga por gosto, não cansa!
Vieira, V., Araújo, C., & Jamelli, S. (2016). Desenvolvimento da fala e alimentação infantil: Possíveis implicações. Revista CEFAC, 6, 1359–1369.
Tanaka, E., Sano, R., et al. (2007). Effects of Food Consistency on the Degree of Mineralization in the Rat Mandible. Anna Biomed Eng., 9, 1617–1621.
Canttoni, D. et al. (2001). Levantamento da consistência do alimento recebido no primeiro ano de vida. Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, 6, 59–64.
N., A.P., & Gross, C. et al. (2009). Fatores interferentes na alimentação de crianças de 17 a 25 meses de uma creche municipal. Revista CEFAC, 3, 291–297.
Jorge, T., AZK., B., et al. (2009). Relação entre perdas dentárias e queixas de mastigação, deglutição e fala em indivíduos adultos. Revista CEFAC, 3, 391–397.
Sugita, K., Inoue, M., et al. (2006). Effects of food consistency on tongue pressure during swallowing. J Oral Biosci, 4, 278–285.
Tanigute. (2005). Desenvolvimento das funções estomatognáticas. In I. Marchesan, Fundamentos em Fonoaudiologia: Aspetos Clínicos da Motricidade Oral. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
Sobre a Joana Caçoeiro, Terapeuta da Fala Miofuncional
•Licenciada pela ESS-IPS com Pós-Graduação em Motricidade OroFacial pelo EPAP e diversas especializações na área da alimentação infantil e motricidade orofacial. Sou também CAM pelo CHULC.
•Atualmente trabalho no Hospital D. Estefânia e na Maternidade Dr. Alfredo da Costa do CHULC. Faço também consultas online e em gabinete próprio.
•As minhas áreas de interesse são a motricidade orofacial na alimentação em neonatologia e pediatria.
•Mais informações ou pedido de consultas: @joanacacoeiro_terapeutadafala (Instagram/Facebook)
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