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por
Carolina
Quem tem uma criança em casa (sobretudo a partir dos 2 anos) sabe que ficar sentada à mesa muito tempo não é propriamente a sua opção preferida. Cinco minutos parecem chegar para comer alguns pedaços e seguir para outra coisa. E quando a refeição é pacífica, já é bom sinal: muitas vezes a criança rejeita a refeição inteira, faz birra, chora.
Então, quando isto acontece, devemos ou não obrigá-la a ficar à mesa enquanto o resto da família come?
Resposta curta: obrigar não costuma ajudar. Forçar uma criança a ficar sentada tende a criar resistência e associações negativas com a comida. O que funciona melhor é manter as refeições em família, deixar a criança sair quando está satisfeita e tornar a mesa um sítio onde apetece estar. Explico abaixo porquê e o que fazemos cá em casa.
Há dias dei este exemplo a uma seguidora com quem conversava. Imaginem que estão num safari em África e pararam para almoçar. As girafas por que tanto esperaram aparecem, e alguém avisa que só vai ser possível vê-las nos próximos 5 minutos. Saíam da mesa para ver as girafas, ou ficavam a comer até ao fim porque só se sai da mesa com o prato vazio?
Reparem como as crianças exploram o mundo à sua volta. Tudo é novidade, tudo é motivo de exploração, tudo é divertido. Já experimentaram guardar um brinquedo do vosso filho e voltar a dá-lo passado algum tempo?
Para um adulto, que já não vê essa magia no dia a dia e chega cansado do trabalho, o jantar é um momento para sentar e relaxar: beber um copo de vinho, conversar com a/o companheira/o. Vemos as refeições de forma muito diferente das crianças.
É claro que devemos criar bons hábitos, e isso começa por comer em família desde o início da alimentação complementar.
Mas forçar uma criança a ficar à mesa cria resistência. A criança fica contrariada, chateada, e estar à mesa passa a ser uma luta. Começa a associar as refeições e a comida a algo negativo. Será isso melhor do que ter a criança fora da mesa ao fim de 5 minutos? Tenho muitas dúvidas.
Esta ideia vai ao encontro da alimentação responsiva, recomendada pela OMS e pela Academia Americana de Pediatria. Um princípio muito usado é a divisão de responsabilidades proposta pela nutricionista Ellyn Satter: os pais decidem o quê, quando e onde se come, e a criança decide se come e quanto.
No outro extremo está a criança que não é forçada a ficar à mesa, mas a quem se dá um ecrã para comer, ou algum tipo de "suborno" ("se comeres tudo, podes comer um gelado" ou "podes ver TV").
Não falo de situações pontuais. Como já partilhei muitas vezes nas nossas redes sociais, a minha filha às vezes come a ver TV. Falo de quando essa é a rotina diária. Neste caso a criança fica à mesa e come tudo, mas não presta atenção ao que está a fazer nem está consciente do que come. Provavelmente não vai notar os sinais de saciedade do corpo, porque está distraída, e pode acabar por comer mais do que precisa.
Não é linear, como tudo na parentalidade. Não julgo as decisões dos pais. Cada realidade é única, e acredito que os pais fazem o que acham melhor para os filhos em cada momento.
Partilho a nossa experiência. Não é necessariamente o que está certo, mas pode ajudar.
Comemos em família desde os 6 meses. Até aos 15–18 meses, a nossa filha deitava-se muito cedo e nem sempre conseguíamos conciliar o jantar dela com o do pai. Por isso eu alternava entre jantar com ela e jantar com ele. As outras refeições eram sempre em família.
Deixamo-la livre para sair da mesa. À medida que foi crescendo e ganhando entendimento, começámos a perguntar-lhe se está mesmo satisfeita, se tem a certeza de que não quer comer mais um pouco, ou se não quer ficar mais um bocadinho a fazer-nos companhia.
Tentamos interagir com ela. Conversamos e fazemos perguntas sobre o dia, sobre algo que viu, nem que sejam aleatórias. Nem sempre é fácil. Também estamos cansados, também queremos ver as notícias que não conseguimos ver durante o dia, também queremos conversar um com o outro.
Levamos entretenimento quando precisamos que fique sentada. Num restaurante, por exemplo, levamos brinquedos, lápis e papel ou livros. É uma opção válida também em casa.
Não enchemos o prato. Um prato cheio cria expectativas erradas nos pais: como o prato não fica vazio, fica a sensação de que a criança não comeu o suficiente, quando o mais provável é ter comido exatamente o que precisava. Se quiser mais, servimos mais. E garanto que, quando gosta da comida, repete uma, duas, três vezes.
Servimos tudo ao mesmo tempo. Sopa, prato principal e fruta (quando há) vão para a mesa juntos. Isto dá-lhe escolha e tira-nos a tentação de dizer que, para comer a fruta, tem de acabar o prato.
Não oferecemos alternativas. Não comeu o almoço? Haverá lanche. Posso servi-lo um pouco mais cedo e torná-lo mais nutritivo, mas a refeição é igual para todos.
Os ecrãs são a exceção, não a regra. Quando acontecem, preferimos a TV aos telemóveis ou tablets.
Envolvemo-la na escolha da refeição. Recentemente comecei a perguntar-lhe, antes de cozinhar, se quer massa ou arroz, se prefere tomate ou beterraba na salada, e por aí fora.
É mau deixar a criança sair da mesa antes de acabar a refeição?
Não necessariamente. Deixá-la sair quando diz que está satisfeita respeita os sinais de fome e saciedade. O importante é manter o horário da refeição seguinte e não oferecer alternativas entretanto.
Posso deixar a criança comer a ver televisão?
Pontualmente, sim. Como rotina diária, não é o ideal, porque a criança fica distraída e tem mais dificuldade em perceber quando está satisfeita.
Devo dar outra comida se a criança não comer a refeição?
Não. A refeição é igual para todos. Se não comer, pode antecipar um pouco a refeição seguinte e torná-la mais nutritiva.
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